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Autoridade: os superiores e os subordinados

A maioria de nós, em algum momento na vida, já passou por uma situação constrangedora, até mesmo humilhante, ofensiva, por parte de um superior, um chefe.

Atualmente fala-se muito na liderança tóxica, daqueles que são capazes de afetar a saúde emocional e o bem-estar de seus colegas. Pessoas que tem um comportamento abusivo e imperativo.

O mercado de trabalho nos testa dia após dia. Engolir sapos, engolir nosso orgulho ferido, em prol de manter nosso tão necessitado emprego.

Muitas vezes nos revoltamos com as palavras agressivas recebidas, vindas sem sentido, gratuitas. Às vezes até xingamos internamente, mas nos controlamos e mantemos nossa dignidade.

Chico Xavier ensina que melhor ser ofendido do que ofender. Então respiramos e contamos até dez.

E essa liderança abusiva, que age pensando apenas em si, é percebida também em outros momentos de nosso dia-a-dia, como praticada por muitos políticos, líderes de nações e cidades, também policiais, ou mesmo o síndico do condomínio…

A verdade é que todo grupo social necessita de um líder, de uma autoridade. Empresas, nações, o próprio centro espírita. De modo a dirigir e organizar as atividades. No próprio plano espiritual, a vida nas colônias também tem uma hierarquia, um comandante.

Porém, muitas vezes, ocorre de o poder “subir à cabeça”, e essa pessoa passa a sentir-se superior aos demais, subordinando o outro a seus caprichos. E para manter a posição, apelam às ameaças, tomando uma postura fria, arrogante, ameaçadora, opressiva, o que leva ao medo por parte de seus subordinados, considerados por ele como seus inferiores.

Autoridade é uma prova

Aquele que se sente superior aos demais, desconhece que a autoridade, assim como a riqueza, é algo a que se terá de prestar contas. Está longe de ser um privilégio.

Nos diz o Evangelho:

“Deus confere a autoridade a título de missão, ou de prova, quando o entende, e a retira quando julga conveniente”. [Assim como a riqueza.]

O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII – Sede perfeitos, item 9 – Os superiores e os inferiores

A autoridade e a riqueza são passageiras, não pertencem a ninguém. Deus empresta-nos esses recursos segundo os méritos e as necessidades de cada um.

“Assim como pergunta ao rico: ‘Que fizeste da riqueza que nas tuas mãos devera ser um manancial a espalhar a fecundidade ao teu derredor’, também Deus inquirirá daquele que disponha de alguma autoridade: ‘Que uso fizeste dessa autoridade? Que males evitaste? Que progresso facultaste? Se te dei subordinados, não foi para que os fizesses escravos da tua vontade, nem instrumentos dóceis aos teus caprichos ou à tua cupidez; fiz-te forte e confiei-te os que eram fracos, para que os amparasses e ajudasses a subir ao meu seio’”.

É uma responsabilidade muito grande de quem está à frente, seja de um ou centenas de milhares de subordinados. Seja um chefe de uma empresa, seja o governante de uma nação, um líder religioso, o diretor de uma escola. Há pessoas sob seu comando, sob sua influência, e o que lhes induzir:

“Responderá pelo bom ou pelo mau direcionamento que dê aos seus subordinados e sobre ele recairão as faltas que estes cometam, os vícios a que sejam arrastados em consequência dessa diretriz ou dos maus exemplos, do mesmo modo que colherá os frutos do esmero que empregar para os conduzir ao bem”.

O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII – Sede perfeitos, item 9 – Os superiores e os inferiores

Um caso extremo ocorrido nos Estados Unidos em 1978 foi o líder de uma seita – a Templo dos Povos –, Jim Jones, que induziu ao misto de suicídio e assassinato, incluindo ele mesmo, de 918 pessoas seguidoras de sua seita, após uma série de restrições que impunha aos mesmos. Aprendemos no espiritismo que um dos piores sofrimentos após a morte é o de um assassino que é também suicida.

Por outro lado, temos também exemplo de uma liderança positiva, cuja influência traz diversos ensinamentos e progresso aos seus seguidores, que é o caso do Chico Xavier, considerado o maior líder espiritual do Brasil até hoje. O respeito a ele é muito grande, e certamente não apenas dos espíritas.

Lei de Causa e Efeito

Nunca nada fica impune.

Devemos lembrar da Lei de Causa e Efeito a qual todos estamos sujeitos. Quem detém hoje a autoridade, pode ser o subordinado de amanhã, nesta em ou outra existência.

Se o superior tem sua prova, o inferior também a tem. Diz o Evangelho: “se a sua posição lhe acarreta sofrimentos, reconhecerá que sem dúvida os mereceu, porque, provavelmente, abusou outrora da autoridade que tinha, cabendo-lhe, portanto, experimentar a seu turno o que fizera sofressem os outros. […] Se se vê forçado a suportar essa posição, por não encontrar outra melhor, o Espiritismo lhe ensina a resignar-se, como constituindo isso uma prova para a sua humildade, necessária ao seu adiantamento”.

Mesmo que a contragosto, devemos então executar nossas tarefas da melhor forma possível, claro, seguindo a ética e os princípios. E lembrando que as faltas de uns não justificam as nossas, e que não devemos pagar o mal com o mal. Agir igual a quem condenamos as atitudes só nos rebaixa moralmente.

E tem algo muito importante a ser destacado: a elevação moral, e que não tem nada a ver com arrogância. Oposta à superioridade pautada no poder, imposta, a superioridade moral é pautada pelos princípios no bem e no amor ao próximo.

Superioridade moral versus a superioridade pelo poder

Conta a lenda que um dia um guerreiro samurai muito orgulhoso, conhecido por todos em sua região, foi visitar um grande mestre espiritual.

Ao ser recebido, o guerreiro, vendo a beleza do olhar do mestre e a imensa graciosidade que emanava, subitamente sentiu-se inferior. Muito irritado com esse sentimento, o guerreiro perguntou:

– Por que me faz sentir inferiorizado dessa forma? O que está acontecendo aqui?

E o mestre respondeu:

– Nada está acontecendo neste momento que não estivesse acontecendo antes que viesse até aqui! Você trouxe esse sentimento consigo!

– Que absurdo! Nunca me senti inferior a ninguém! – rebateu o guerreiro.

O mestre apontou para duas arvores em seu jardim dizendo:

– Olhe para essas arvores em meu jardim! Uma é tão alta que quase toca o céu e seus galhos frondosos oferecem sombra para todo o meu telhado. E a outra é pequena, tem poucas folhas, mas dá ótimos frutos. Elas estão aqui há anos e nunca houve qualquer problema entre elas. Qual delas você diria que é superior a outra?

E o samurai confuso respondeu:

– Não sei! Nenhuma, oras! Cada uma tem um importante atributo!

E o mestre sorrindo disse:

– Então, você já sabe a resposta para a pergunta que me fez a respeito de seu sentimento de inferioridade. Agora sabe como fazer para não se sentir nem inferior e nem superior a ninguém!

A lição dessa lenda é que quando deixamos de nos comparar aos outros, entendendo que cada ser tem uma forma de ser e um talento, o sentimento de inferioridade ou de superioridade perde o sentido.

Esse líder guerreiro sentiu a autoridade moral do líder religioso só ao aproximar-se dele.

“Os Espíritos perversos sentem que os homens de bem os dominam”, ou seja, reconhecem a superioridade moral.

(Livro dos Médiuns, segunda parte, capítulo XXV, das evocações, espíritos que se podem evocar, item 279)

Uma moral elevada, por si só e os fluídos que transmite, é capaz de suavizar o coração mais embrutecido.

Por isso à época de Jesus muitos, apenas por se aproximarem dele, por sua pela elevação espiritual, sentiam-se muito bem, muitos ajoelhavam-se até, outros choravam tamanho envolvimento pelos fluídos emanados por sua ascendência moral.

O respeito e a humildade são fundamentais. Devemos saber nos controlar, e agir com a razão. Para quando passarmos por alguma situação que nos fira emocionalmente, levantemos a cabeça, não nos revoltemos e, principalmente, que não ofendamos de volta.

Por Raquel Pereira

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