Orgulho e Preconceito

Vinte de novembro é o Dia da Consciência Negra. Uma data que busca a reflexão quanto à discriminação e à desigualdade social no Brasil.

Há mais de 300 anos neste mesmo dia falecia Zumbi dos Palmares, grande representante da luta contra a escravidão na região nordeste. Por isso, é que este dia foi escolhido como o da Consciência Negra.

A escravidão no Brasil durou mais de 350 anos, até a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888 pela princesa Isabel, quando pôs fim a essa triste história de nosso país.

Isabel, filha de Dom Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina, encarnou com a missão de pôr fim à escravatura em nosso país, segundo nos relata Humberto de Campos no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, com psicografia de Chico Xavier. Em encarnação passada, Isabel havia sido escrava, e após o último desencarne, por toda sua humildade, apresentava-se não como princesa, mas como uma preta-velha.

No entanto, as consequências desse período permanecem até hoje, e a luta contra o preconceito parece não ter fim. O Brasil é um país de variadas culturas e etnias, que formaram nossa nação. Infelizmente, o racismo existe, e muitos sofrem e são repelidos na vida social e também profissional.

E essa luta, contra a segregação racial, não é exclusiva do nosso país, muitos outros enfrentam situações semelhantes ou mesmo mais extremas, como os Estados Unidos.

“Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter. (…) Um dia, meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos”.

Essas palavras são de Martin Luther King em seu lendário discurso em 28 de agosto de 1963, no Memorial de Lincoln na cidade de Washington nos EUA. Um dos principais ativistas pelos direitos civis, King foi símbolo da luta contra a segregação racial nos EUA, país onde por muito tempo seu povo não podia compartilhar um mero bebedouro, nem um mesmo hospital, devido ao tom de sua pele.

 

Todos somos irmãos

Ensinou-nos Jesus que todos somos irmãos, porém, o homem insiste em não entender esta máxima, dado nosso baixo grau evolutivo moralmente.

Luther King, assim como tantos outros, princesa Isabel, Nelson Mandela, encarnaram com a missão de quebrar esses preconceitos, ensinando a igualdade.

Lembremos que o preconceito aparece de variadas formas, e pode ser: racial, social, religioso, comportamental, etc. E todos devem ser combatidos, pois podem acarretar traumas emocionais e psicológicos que seguem pela vida toda.

Com a compreensão da vida espiritual, o preconceito em suas variadas formas irá se extinguir.

O espiritismo nos ensina que a verdadeira vida é a espiritual, assim, nós somos essencialmente “espírito”, que é imortal e não tem forma, nem cor, nem sexo.

Tudo o que temos aqui na matéria durante a encarnação é passageiro: bens, posição social, estudo, e inclusive o corpo. “Estamos”, portanto, e não “somos”.

O que permanece é nossa essência, nossa consciência. Apenas o que é imaterial.

Aprendendo isso, é o que de fato entenderemos o verdadeiro sentido de todos sermos irmãos, somos iguais perante Deus nosso criador. E como espíritos somos iguais.

 

Orgulho leva ao Preconceito

Nós sempre reparamos, julgamos, nos comparamos aos outros.

Vamos pegar como exemplo um deficiente visual. Suas sensações ficam mais aguçadas com a ausência da visão, e sem ter a crítica do olhar, não há julgamentos como vestimentas, cor de pele, não é mesmo? Ele sente como o outro é, seu caráter, e os aspectos físicos perdem a importância.

A discriminação vem do nosso orgulho, que nos leva a julgar-nos superior. Sentindo-se superior, o homem se vê no direito – e deixemos bem claro que é um direito que não tem – de sentir-se melhor que a um irmão. Daí é que surgem os preconceitos, as discriminações, a intolerância.

Enquanto nos envolvemos em maior ou menor grau em paixões como a inveja, o ciúme, o egoísmo, a arrogância, a sede pelo poder, não nos livraremos se atitudes nocivas a elas atreladas como o preconceito.

Jane Austin, autora inglesa do começo do século XIX, retrata bem em seu romance Orgulho e Preconceito, adaptado algumas vezes ao cinema, que enquanto há o véu do orgulho, o preconceito impera, quando ele é derrubado, os sentimentos puros como o amor e a bondade afloram. A história gira em torno de um romance entre uma moça de classe média e um rico jovem da alta sociedade. Por sua vaidade, despreza a moça por ser de uma classe social inferior. Algo muito comum à época, e até hoje inclusive.

 

Casos de intolerância que chocaram o mundo

Infelizmente, há inúmeros casos de preconceito e intolerância no qual a crença na superioridade de um em detrimento a outro levou a casos extremos no mundo.

  • Apartheid

Ocorrido na África do Sul, era um modelo de política racial no qual a minoria branca era a única que poderia votar e detinha o poder político e econômico. Enquanto a maioria negra era obrigada a aceitar e viver em zonas residenciais segregadas. Até casamentos entre diferentes etnias eram proibidos. Na década de 1950, com a oposição ao regime, muitos morreram em confrontos. Nelson Mandela liderava os protestos e ficou anos preso. Apenas em 1992 o Apartheid chegou ao fim. No ano seguinte, Mandela ganhou o Prêmio Nobel da Paz e em 1994 foi eleito presidente do país.

  • Holocausto

Já durante o século XIX os judeus eram alvo de discriminação por motivos econômicos e religiosos. Com a ascensão do nazismo na Alemanha, esse sentimento foi acentuado por acreditarem serem eles uma “raça deformada”, junto dos ciganos, de pessoas deficientes e de homossexuais. Assim, durante a Segunda Guerra Mundial, surgem os campos de concentração e de extermínio, que mataram cerca de 6 milhões de pessoas.

  • As chamadas “guerras santas”

Guerras nunca são santas, mas ganharam essa denominação por terem sua motivação na intolerância religiosa.

Durante a Idade Média, os cristãos quiseram tomar Jerusalém, dominada por muçulmanos, dando início às Cruzadas.

Séculos depois, nos dias atuais, a história se inverteu, e algumas linhas extremas muçulmanas passaram a condenar cristãos por não estarem alinhados aos seus ideiais.

  • Bullying e assédio moral

Representam não um, mas variados casos de intolerância que acontecem todos os dias em variados cantos do mundo, e podem levar à depressão e ao suicídio, inclusive entre adolescentes. Consistem em agressões verbais, físicas e psicológicas que humilham, intimidam e traumatizam a vítima, baseados em suas características físicas, seus hábitos, sua sexualidade e sua maneira de ser. Entre crianças e adolescentes, utiliza-se o termo bullying, que pode ocorrer em qualquer lugar, mas é mais comum nas escolas; já quando ocorre entre adultos, o termo usado é o assédio moral, mais comum em empresas.

 

Por que há diferenças físicas e morais entre as pessoas?

Por que Deus permite haver tantas diferenças, e que levam a tantos casos de intolerância e violência?

Vamos raciocinar: os espíritos, como vimos, não têm forma, assim, basicamente são iguais. Só a vida na matéria é que pode nos proporcionar os reais aprendizados. Apesar de estarmos sempre aprendendo e evoluindo, seja encarnados seja desencarnados, na matéria é que testamos nossa essência, sem a influência do passado, daí o esquecimento de vidas anteriores. Assim, evoluímos de acordo com o que realmente somos.

Assim, se todos fossem e pensassem da mesma forma, será que conseguiríamos aprender? É difícil a convivência, não é mesmo? Aceitar as diferenças de ideias, de caráter, tudo isso nos faz aprender a tolerância, a resignação, e também faz com que ensinemos o outro. É uma troca, ensinando e aprendendo.

No Livro dos Espíritos em sua primeira parte há no capítulo III a “diversidade das raças humanas”, que explica que elas vêm do clima, da vida e dos costumes e, também da própria origem da vida em nosso planeta, que ocorreu em períodos distintos. Porém, deixa-nos claro que apesar das diferenças físicas, não são espécies diversas, mas sim todos humanos são da mesma família.

Para compreender melhor essa questão, vamos voltar ao início, como tudo começou. Deus nos criou simples e ignorantes. A vida no princípio é puramente instinto, buscando a sobrevivência. Com as sucessivas vidas, vamos desenvolvendo a inteligência, e com ela, aprendemos a nos organizar em grupos, a conviver uns com os outros e, assim, adquirimos o direito do livre-arbítrio. Caminhamos lentamente à perfeição moral, quando não será mais necessário reencarnarmos.

LIVRE-ARBÍTRIO – Liberdade moral do homem; faculdade de guiar-se conforme a sua vontade, na realização de seus atos. Ensinam os Espíritos que a alteração das faculdades mentais, por uma causa acidental ou natural constitui o único caso em que o homem se vê privado do livre-arbítrio. Fora disto é sempre senhor de fazer ou não fazer uma coisa. Ele goza dessa liberdade no estado de Espírito e é em virtude dessa faculdade que livremente escolhe a existência e as provas que julga adequadas ao seu adiantamento. Conserva-a no estado corpóreo, a fim de poder lutar contra as mesmas provas.

“A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: ao progresso intelectual, pela atividade que ele é obrigado a desenvolver no trabalho; ao progresso moral, pela necessidade que os homens têm uns dos outros. A vida social é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, numa palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso tem por motor, por objetivo e por estimulante as relações do homem com seus semelhantes; para o homem que vivesse sozinho, não haveria vícios nem virtudes; se, pelo isolamento, ele se preserva do mal, anula o bem. (…) Uma única existência corporal é manifestamente insuficiente para que o Espírito possa adquirir todo o bem que lhe falta e desfazer-se de tudo o que nele é mau.”

O céu e o inferno, primeira parte, capítulo III, o céu

Exemplo de reajuste:

Joana fora muito maledicente em sua última encarnação. Usava o dom da fala para influenciar pessoas fazendo com que muitos sofressem, julgava os outros, criava planos maldosos. Ao desencarnar, sofreu muito no umbral, e ao arrepender-se foi socorrida. Como ela usou mal a fala, para a próxima encarnação, ela escolheu nascer com deficiência mental e muda. E diz: “(…) esquecendo [da vida passada ao reencarnar], sou bem capaz de fazer tudo de novo. Sendo muda, não terei como usar mal o dom da fala”.

Antônio Carlos, o irmão que escreveu o livro Entrevista com os Espíritos, de psicografia de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho, nos explica este caso, dizendo que todos temos nosso livre-arbítrio, e a irmã usando o dela fez a escolha para a próxima encarnação. Ela teria ainda um tempo no plano espiritual para aprender e poderia rever a sua escolha, caso contrário, transmitiria ao feto sua vontade.

 

Lei de Causa e Efeito

Tenhamos em mente que tudo o que acontece tem uma razão de ser. Assim, por mais que fiquemos tristes e chocados com tantas crueldades, tanta violência, tanta intolerância, é a lei de causa e efeito sendo aplicada.

O ditado “quem planta vento colhe tempestade” é o resumo do que pode ser a Lei de Causa e Efeito. Nosso livre-arbítrio nos permite a liberdade de agirmos correta ou incorretamente, e segundo nossas ações, receberemos uma reação. De erros, podemos nos redimir pelo amor, com boas ações, ou pela dor, que são as tantas mazelas da vida. Mas devemos considerá-la como educativa, e não como punição. É uma nova forma de fazermos melhor numa próxima oportunidade, numa nova vida.

Claro que, apesar da justiça divina permitir que essas atrocidades corram por uma razão, devemos lutar contra isso. Sempre procurando agir no bem e auxiliando o próximo.

“Deus, cujas leis todas são soberanamente sábias, nada faz de inútil. Pela reencarnação no mesmo globo, quis ele que os mesmos Espíritos, pondo-se novamente em contato, tivessem ensejo de reparar seus danos recíprocos. Por meio das suas relações anteriores, quis, além disso, estabelecer sobre base espiritual os laços de família e apoiar numa lei natural os princípios da solidariedade, da fraternidade e da igualdade.”

O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IV, Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo, Necessidades da encarnação.

Alguns aprendem antes, outros seguem o caminho do mal. Muitos caem na tentação do poder, do dinheiro, e sentem-se superior a outros, passando por cima de um irmão.

Com as leis de Deus, o preconceituoso de hoje provavelmente estará amanhã, em futura experiência reencarnatória, vivenciando a condição daqueles que discriminou.

Precisamos passar por variadas condições para entendermos na pele o que o outro sente. Deus permite isso para que aprendamos a respeitar uns aos outros e entendermos que não são as aparências físicas ou comportamentais que nos dizem quem somos, mas nossos atos.

Se todos fôssemos iguais, não teríamos os aprendizados pelos quais passamos. Apenas assim é que, de fato, nos depuramos verdadeiramente de todas paixões para atingirmos a perfeição.

 

Texto do livro Vigiai e Orai do irmão José e psicografia de Carlos Baccelli:

PRECONCEITO

Qualquer tipo de preconceito que alimentes é sinal de estreiteza de espírito. Cada qual vive de acordo com as suas opções de vida.

Estamos à caminho, mas falta-nos muito chão a percorrer.

Não te escandalizes diante das atitudes que te causem estranheza.

Ninguém é igual a ninguém.

Habitua-te a respeitar as preferências das pessoas, as inclinações que revelem e o modo de vida que elegem.

Não sabes o que foste e nem podes prever o que serás.

Trata a todos com igual respeito e consideração.

Jesus não se esquivava de prostitutas e de homens de má vida.

Lembra-te: O amor cobre multidão de pecados.

Por Raquel Pereira


Leia mais:

O que é a reencarnação?

Brasil: coração do mundo, pátria do Evangelho

O porquê da escravidão

 

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