Formas de praticar a caridade

Aprendemos com o espiritismo mil maneiras de sermos pessoas melhores, de forma a evoluir moralmente.

Mas há uma maneira que se destaca dentre tantas outras, que representa muito mais do que pode parecer conter uma só palavra: a caridade.

O Evangelho segundo o Espiritismoum dos cinco livros básicos do espiritismo – contém diversas passagens de Cristo à luz da doutrina espírita, e a caridade é presença constante em variados de seus capítulos, e até um inteiro a ela dedicado.

Nesta matéria, vamos estudar como podemos ser caridosos, e ao contrário do que muitos pensam, vai muito além da ajuda material.

 

E vamos começar com uma história contida no Evangelho de título: Os Infortúnios Ocultos.

“Nas grandes calamidades, a caridade se emociona e observam-se impulsos generosos, no sentido de reparar os desastres. Mas, a par desses desastres gerais, há milhares de desastres particulares, que passam despercebidos: os dos que jazem sobre um grabato sem se queixarem. Esses infortúnios discretos e ocultos são os que a verdadeira generosidade sabe descobrir, sem esperar que peçam assistência”.

Resumo: uma mulher distinta, com roupas simples, acompanhada de sua jovem filha entram numa casa simples, onde são já conhecidas, e lá estão para acalmar as dores daquela família cujo pai está hospitalizado, e cuja mãe não consegue suprir a necessidade das crianças. Levam o que eles necessitam materialmente, além de palavras consoladoras a lhes confortar. Ela não pergunta a crença, ou opiniões, pois considera todos seus irmãos e filhos de Deus. Na esquina, uma carruagem a aguardava. Seu nome, onde morava, ninguém sabia. Era espírita? Isso não importa.

Vestia-se com simples trajes para não insultar a miséria com o seu luxo. Levava sua filha para que aprendesse como se deve praticar a caridade. E a jovem também queria ajudar, mas a mãe lhe diz: O que pode dar se não tem nada que seja seu? Se eu lhe passar alguma coisa, qual mérito terá você? Nesse caso, serei eu quem faz a caridade. Mas você pode ajudar tratando os doentes, ou confeccionando roupas para as crianças. 

Esta senhora não contava a ninguém o trabalho de assistência que fazia, porque não precisava da aprovação de ninguém, só de sua consciência.


Desta lição, podemos tirar vários ensinamentos sobre a caridade. Primeiro, que a caridade não é motivo de vaidade ou de orgulho de quem a pratica, é um ato de amor. A própria origem etmológica da palavra caridade, do latim caritas, significa amor, ternura.

“Em fazer o bem sem ostentação há grande mérito; ainda mais meritório é ocultar a mão que dá; constitui marca incontestável de grande superioridade moral.” Do contrário, é orgulho e vaidade, para ouvir: veja como ele é bondoso.

O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo XIII – Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita

Sem humildade, não podemos ser caridosos com o próximo, porque este sentimento nivela os homens, dizendo-lhes que todos são irmãos.

Assim, não procure saber antes de socorrer o necessitado, qual a sua crença, ou a sua opinião, seja sobre o que for. Isso não importa.

Também aprendemos que a ajuda não é só material, muitas vezes uma palavra de consolo é simplesmente o que uma pessoa precisava para seu dia ficar bom.

Para ser caridoso, dê algo que você possua. Se vier de outro o mérito não é seu, como a filha que pediu algo à mãe para poder doar. Há variadas formas de ajudar com o você pode oferecer.

A caridade está ao alcance de toda gente: do ignorante, do sábio, do rico, do pobre, e independe de qualquer crença particular.

 

Fora da caridade não há salvação

O capítulo XV do Evangelho.

 

Num primeiro momento nos assunta. E nos questionamos, será que sou caridoso? Serei punido se não o for?

Lembremos sempre que Deus é justo, e que não há castigos ou punições, mas sim colhemos o que plantamos, e as lições da vida é que nos levam a aprender, ora pelo amor, ora pela dor.

A caridade e a humildade são as grandes virtudes ensinadas por Jesus. Em todos os seus ensinos, ele aponta essas duas virtudes como sendo as que conduzem à eterna felicidade.

Significa que é o caminho a ser seguido, que fará bem a nós mesmos antes de tudo.

Pensemos como nos sentimos bem ao fazer algum bem ao próximo. Isso nós dá alegria, paz interior, o contentamento da nossa alma, quando é feito de coração.

A caridade é inteiramente relacionada à profundidade da máxima de Jesus: “amarás o teu próximo, como a ti mesmo”. Ou seja, enxergando o outro como nosso irmão, filho de Deus como nós.

No nosso estágio atual evolutivo, é praticamente impossível amarmos ao outro como a nós de uma maneira plena assim. É simples para quem de fato amamos, nossos parentes, familiares. E olhe lá, quantos atritos, quantas discórdias, quantas mágoas com pessoas próximas. Não conseguimos seguir em frente, nos prendemos às vezes por picuinhas. E por quê? Porque simplesmente não nos desprendemos de paixões como o orgulho e o egoísmo.

De qualquer forma, procuremos entender as palavras de Jesus e trabalhar da melhor forma nossas atitudes e nossas palavras para buscarmos não ferir, não agredir, mas sim compreender e reduzir a importância para coisas não têm. E saber perdoar, ter empatia para amarmos o outro de verdade.

Daí é que abrimos os braços para a verdadeira caridade em suas variadas formas.

 

Caridade material e caridade moral

A verdadeira caridade, mostra-se não só na beneficência, com a ajuda humanitária e material, como também no conjunto de todas as qualidades do coração, na bondade e na benevolência/amabilidade para com o próximo, que é o que podemos chamar de caridade moral, que todos podem praticar, que nada custa, materialmente falando, porém, que é a mais difícil de exercer-se.

Assim, a falta de recursos financeiros não é desculpa para não ajudar. Todo aquele que sinceramente deseja ser útil a seus irmãos, mil ocasiões encontrará de o realizar.

Então ações que nem imaginamos são atos de caridade moral:

  • Não dar atenção a comportamentos, más condutas, de outros. Saber calar-se, sem rebater uma ofensa; saber ignorar quando ouvir uma palavra zombeteira; não ver o sorriso de desdém de pessoas que se julgam acima de vós. Tudo isso é ser humilde, mas também caridoso.
  • Dirigir um bom pensamento: orar pelos que necessitam, pelos que desencarnaram, conhecidos ou não. Uma prece feita de coração os alivia. E também orar pelos nossos inimigos.
  • Saber usar as palavras: dar bons conselhos; incentivar o ânimo e a disposição; mostrar a justiça de Deus e a esperança de dias melhores; orientar crianças e jovens no caminho do bem. É dispor de seu tempo, de sua atenção e experiências em prol do semelhante.
  • Rever nossas ações: não tratar com desprezo nosso semelhante. Lembremos que repelindo um necessitado, poderemos estar afastando de nós, talvez, um irmão, um pai, um amigo de outra vida. Também saber ir ao encontro dos necessitados, os infortúnios. Nem sempre o mais necessitado é o que pede. Também é saber ouvir, muitas vezes o desabafo alivia o coração e é tudo do que a pessoa precisa; abraçar com ternura; respeitar outros seres vivos, como os animais e também as plantas.
  • Ser indulgente/compreensivo: perdoar ofensas, responder o mal com o bem; entender as fraquezas das pessoas; cuidar para não ferir ninguém com palavras ou atitudes; respeitar as crenças.
  • Doar tempo e energia ao trabalho espiritual: como passes e atendimentos a irmãos necessitados realizados em casas espíritas.

 

Ajuda material: não confundir caridade com esmola

A ajuda material é sim muito importante também. Quantos precisam de roupas, de alimentos que mal o básico possuem. O dinheiro move a economia, estimula a ciência, estando nós na matéria, ele é necessário.

Sabemos que quem se encontra em situação de miséria nada tem de acaso, mas sim trata-se de expiação por atitudes cometidas no passado.

No entanto, como nossos irmãos, podemos e devemos ajudar, mas sem humilhação.

Não se deve confundir caridade com esmola. Esmola é algumas vezes útil, mas é quase sempre humilhante, tanto para o que a dá, como para o que a recebe. E deve ser diferenciada da caridade, que, ao contrário, liga o benfeitor ao beneficiado e se disfarça de tantos modos como aprendemos!

Considerando que há variadas formas de ajudar, às vezes entregar o dinheiro em si é a menos notável delas. É como se alivia a culpa pela necessidade de ajudar, sem de fato colocar o coração na ação dependendo de como for praticada. É uma “caridade fria e egoísta, que consiste em a criatura espalhar ao seu derredor o supérfluo de uma existência dourada”.

Para os que recebem, para alguns é um estímulo a acomodarem-se na ajuda e não procuram crescer.

“A pobreza é, para os que a sofrem, a prova da paciência e da resignação; a riqueza é, para os outros, a prova da caridade e da abnegação.”

E a abnegação também é saber ser caridoso. Aos que possuem bens materiais é importante saber doar com sabedoria sem repelir e difundindo o amor de Deus, ao trabalho, ao próximo. “O desapego aos bens terrenos consiste em apreciá-los no seu justo valor, em saber servir-se deles em benefício dos outros e não apenas em benefício próprio, em não sacrificar por eles os interesses da vida futura, em perdê-los sem murmurar, caso apraza a Deus retirá-los.”

 

Uma história do outro mundo

Do Evangelho Segundo o Espiritismo
Resumo: dois homens acabam de morrer. Disse-lhes Deus: coloquem em um saco suas boas ações para que sejam pesadas. Um estava cheio, volumoso; o outro era pequeno e tão vazio que se podiam contar as moedas que continha. Disse um dos homens: este é o meu, fui rico e dei muito. O outro fala: sempre fui pobre, quase nada tinha para repartir.

Quão surpresos ambos ficam quando na balança o saco leve foi o que mais pesou. Deus, então, disse ao rico: deu muito, é certo, mas por ostentação e orgulho, e de nada se privou. E depois falou ao pobre: você doou pouco, mas cada uma dessas moedas representa uma privação a que se impôs. Não deu esmolas, você praticou a caridade, e o que vale muito mais, a fez naturalmente e com indulgência, compaixão (Um Espírito protetor – Lião, 1861).

 

E resumindo tudo:

Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade?

A resposta é BIP 886.

Benevolência, Indulgência, Perdão.

A pergunta 886 do Livro dos Espíritos, um dos cinco livros básicos do espiritismo de Allan Kardec (parte terceira – Das leis morais / capítulo XI item 10 – Lei de justiça, de amor e de caridade / Caridade e amor do próximo).

Nesta questão, está a resposta que a verdadeira caridade é a benevolência/afeição para com todos; a indulgência/compaixão para as imperfeições dos outros; e o perdão das ofensas.

Não é simples, não é fácil para nós ser assim. Então, como uma lição de casa, se acharmos que estamos no caminho errado, lembremos sempre do BIP da caridade, e da história dos Infortúnios Ocultos.

Curiosidade: de onde vem a expressão BIP 886?
Etna Lacerda é uma professora aposentada. Espírita, foi evangelizadora numa Escola Espírita no Rio de Janeiro, quando começo a escrever histórias aos pequenos frequentadores. É autora de vários livros infanto-juvenis, entre eles o BIP 886, romance que narra a história de um garoto que tenta desvendar o código, que dá título ao livro, que seu avô deixou ante de desencarnar.
Atualmente, vários autores e palestrantes espíritas adotaram o termo BIP para falar sobre a caridade.


CARIDADE, de Emmanuel

Em Viajor, psicografia de Chico Xavier

 

CARIDADE é, sobretudo, AMIZADE.

Para o faminto — é o prato de sopa fraterna.

Para o triste — é a palavra consoladora.

Para o mau — é a paciência com que nos compete auxiliá-lo.

Para o desesperado — é o auxílio do coração.

Para o ignorante — é o ensino despretensioso.

Para o ingrato — é o esquecimento.

Para o enfermo — é a visita pessoal.

Para o estudante — é o concurso no aprendizado.

Para a criança — é a proteção construtiva.

Para o velho — é o braço irmão.

Para o inimigo — é o silêncio.

Para o amigo — é o estímulo.

Para o transviado — é o entendimento.

Para o orgulhoso — é a humildade.

Para o colérico — é a calma.

Para o preguiçoso — é o trabalho.

Para o impulsivo — é a serenidade.

Para o leviano — é a tolerância.

Para o deserdado da Terra — é a expressão de carinho.

 

CARIDADE é o AMOR, em manifestação incessante e crescente. É o sol de mil

faces, brilhando para todos, e o gênio de mil mãos, amparando, indistintamente, na obra do bem, onde quer que se encontre, entre justos e injustos, bons e maus, felizes e infelizes, porque, onde estiver o Espírito do Senhor aí se derrama a claridade constante dela, a benefício do mundo inteiro.

 

Por Raquel Pereira

 

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