Pecados capitais na visão do espiritismo

Charles Dickens, um dos principais autores da língua inglesa, escreveu em 1843 Um Conto de Natal, cujo protagonista, Sr. Scrooge, é um empresário rabugento e sovina. Em uma noite de Natal, ele prefere a solidão, e algo inesperado acontece quando começa a ver espíritos, que querem alertá-lo sobre seu comportamento enquanto há tempo. Um desses espíritos é seu antigo sócio, que de tão agarrado aos bens materiais ainda está acorrentado a um baú cheio de ouro. Um perfeito avarento.

A avareza é um dos chamados sete pecados capitais.

Além dela, há a gula, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e a soberba.

 

Origem do termo pecado

Antes de existir o cristianismo já se falava em vícios de conduta. Desde Os Dez Mandamentos procura-se uma forma de guiar o homem no caminho do bem, mostrando o que é certo e o que é errado. Já no Antigo Testamento há o conceito de pecado.

A palavra vem do latim peccare, que significa passo em falso, cair, remetendo a culpa, delito, transgressão.

Assim, religiosamente passou a representar a transgressão livre e consciente de lei ou preceito de Deus. Segundo Santo Agostinho, o pecado é “uma palavra, um ato ou um desejo contrários à Lei eterna”.

No século VI, o catolicismo do papa Gregório Magno definiu como sete os principais erros da conduta humana. No entanto, apenas centenas de anos depois, no século XIII, é que a Igreja oficializou os chamados Sete Pecados Capitais quando publicou a Suma Teológica por São Tomás de Aquino.

O intuito era educar os seguidores dessa doutrina, de forma que pudessem compreender e controlar os instintos básicos do ser humano que o afastavam de Deus.

O termo capital deriva do latim caput, que significa cabeça, líder ou chefe. Por isso fala-se em pecados capitais, ou seja, os principais, e partir deles viriam todos os outros segundo o catolicismo.

Do ponto de vista teológico da Igreja Católica, o mais grave é a soberba, na qual se enquadra o Pecado Original de Adão e Eva, quando aceitaram o fruto proibido.

Outras religiões como o judaísmo e o protestantismo também têm o conceito de pecado em suas doutrinas, mas o uso do termo dos Sete Pecados é exclusivo do catolicismo, assim como sua classificação em pecado original, por exemplo.

 

Existe pecado para o espiritismo?

Na doutrina espírita não se usa o termo pecado, que é uma tradição utilizada pelo catolicismo e algumas outras doutrinas, como as citadas anteriormente neste artigo.

O espiritismo procura desmistificar e projetar luz sobre uma imensidade de pontos obscuros, assim, no Livro dos Espíritos de Kardec na parte quarta “Das esperanças e consolações” há no capítulo II “Das penas e gozos futuros” a explicação do ponto de vista do espiritismo a respeito dos termos “Paraíso, inferno e purgatório. Paraíso perdido. Pecado original”.

Todos são alegorias, que por séculos foram utilizadas para facilitar a compreensão das pessoas, que à época seria muito difícil entender de outra forma.

As falas de Jesus, inclusive, eram também formadas por alegorias. Certa vez, um de seus discípulos lhe pergunta: “por que falas por parábolas?”, ao que ele responde: “falo-lhes por parábolas, porque não estão em condições de compreender certas coisas. Eles veem, olham, ouvem, mas não entendem”. (O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXIV)

A respeito do pecado original, que segundo o catolicismo é o pecado cometido por Adão e Eva quando aceitaram o fruto proibido, o espiritismo nos mostra o que representa essa alegoria, e há mais detalhes para quem quiser se aprofundar no Livro dos Espíritos (capítulo acima apresentado):

A humanidade está em constante progresso, nosso planeta também. Hoje, é um mundo de Expiações e Provas, mas estamos na fase de transição para um planeta de Regeneração, quando o bem começará a triunfar. Assim, irmãos muito ligados ao mal já não nascerão mais aqui, e espíritos mais evoluídos, voltados para o bem – a chamada nova geração –,  já estão encarnando para auxiliar a humanidade nessa transição. E esse processo também ocorre em outros mundos habitados.

nova geração
“Para que os homens sejam felizes sobre a Terra é preciso que ela seja povoada apenas por bons espíritos, que apenas queiram o bem.” A Gênese, Allan Kardec.

Esses irmãos menos adiantados que não mais encarnarão na Terra habitarão mundos também menos adiantados, em sintonia a sua vibração. E como consta no livro: “neste banimento de Espíritos da Terra transformada não percebeis a alegoria do Paraíso perdido, e na vinda do homem para a Terra em semelhantes condições, trazendo em si o gérmen de suas paixões e os vestígios da sua inferioridade primitiva, não descobris a não menos alegoria do pecado original?”. Ou, seja, o termo pecado original se prende à natureza ainda imperfeita do homem e suas próprias faltas.

 

Se não usa pecado, como o espiritismo encara as boas e as más atitudes?

Assim como outras religiões, o espiritismo também ensina o caminho do bem, mostrando que as más condutas estão contra as leis de Deus e atrasam nossa evolução moral.

Mas o espiritismo explica que Deus é justo e não concede castigos, mas sim novas oportunidades de corrigir tendências e de fazer de novo e melhor por meio de sucessivas vidas. Por isso não lembramos conscientemente de vidas passadas, que é para seguir sem olhar para trás, mas com o sentimento de que podemos fazer diferente e melhor da próxima vez.

O espiritismo prega a reforma íntima, que é procurar enxergar nossos erros para conseguirmos melhorar, nos libertando de toda e qualquer ação, conduta, sentimento e vício que atrasam nossa evolução moral.

 

O que o espiritismo pode nos ensinar sobre cada um desses sete comportamentos chamados de pecados capitais?

Todos eles são prejudiciais e já não existem entre os espíritos evoluídos. Assim como tantas outras atitudes como a maledicência, o negativismo, a intriga, os maus pensamentos…

A seguir, vejamos cada um deles segundo o espiritismo e quais as consequências de quem procura manter-se com essas atitudes:

  • Avareza
Fantasmas de scrooge
Cena do filme “Os Fantasmas de Scrooge” de 2009, baseado na obra “Um Conto de Natal” de Dickens.

A avareza é um dos grandes entraves para a evolução, pois muito comumente leva a uma outra atitude chamada de apego. Pessoas muito ligadas à bens materiais tendem a sofrer muito ao desencarnar, pois tem dificuldades em se desprender, como o exemplo do começo deste artigo, sobre o personagem de Charles Dickens preso ao baú de dinheiro.

“Quando Jesus disse ao moço que o inquiria sobre os meios de ganhar a vida eterna: ‘Desfaze-te de todos os teus bens e segue-me’”, com isso, ele não quis dizer que se deve despojar do que tem e que só assim há a salvação; mas, quis mostrar que o apego aos bens terrenos é um obstáculo.

No contraponto da avareza, podemos praticar mais a generosidade.

Como sempre falamos, a verdadeira vida é a espiritual. A matéria nos serve para a vida na matéria, quando encarnados, mas não valem de nada na vida espiritual. Riquezas, cargos, poder, nós não levamos, apenas nossa essência e são as nossas virtudes que contam.

  • Soberba ou Orgulho

Este que hoje se julga acima dos outros, o que era antes de ser nobre, rico, poderoso? Esta condição é passageira, e uma prova. Muitos reis, religiosos, que se julgavam acima até de Deus, padecem de sofrimento junto a seus semelhantes após o desencane nos vales do Umbral, até quando se arrependerem e perceberem que todos somos irmãos.

No Evangelho segundo Espiritismo, capítulo IX, há: “O orgulho vos induz a julgardes mais do que sois, a não aceitar uma comparação que vos possa re­baixar, e a vos considerar, ao contrário, acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece. E o que acontece, então? Entregai-vos à cólera.”

Em contrapartida, sejamos mais humildes. Todos estamos no mesmo barco, aprendendo diariamente. Sem humildade, não podemos ser caridosos com o próximo, porque este sentimento nivela os homens, dizendo-lhes que todos são irmãos.

  • Ira

Falamos do orgulho que se entrega à cólera, daí temos a ira. E nada mais é do que o orgulho ferido, não?

Entregamo-nos ao nervosismo por sentirmos humilhados em nossa honra. Jesus ensinou que “se alguém vos bater numa face, apresentai-lhe a outra”, ou seja, não sejamos vingativos.

Há o ditado popular que diz: mais vale um covarde vivo do que um valente morto. Devemos controlar nossos impulsos, sermos pacientes. A paciência com entes queridos, com amigos, colegas de trabalho, nunca revidando. A vingança é um dos piores sentimentos, só traz tristeza e que nos mantém estacionados sem evoluir, sem aprender, presos ao ódio.

Cada um responde pelos seus atos, deixemos a cargo de Deus.

Chico Xavier dizia com sabedoria: melhor ser ofendido do que de ofender.

  • Inveja

O invejoso é aquele que em vez de viver sua própria vida quer viver a do outro. Quer ter o mesmo dinheiro, a mesma posição, o mesmo carro do outro. Além de bens materiais, também inveja as qualidades, os relacionamentos, a bondade do outro. Ninguém vê os tombos que o outro leva, ou tudo que fez e aprendeu para chegar àquele ponto.

Se entendêssemos que a nós é dado conforme nossas obras, não haveria inveja. Nada ocorre por acaso. Cada um tem sua vida que é resultado de suas escolhas e atitudes, sejam elas nesta vida ou em vidas anteriores.

O invejoso perde tempo procurando igualar-se ao outro e esquece de suas bênçãos e de virtudes que pode desenvolver para sua evolução. Fica envolvo em vibrações de raiva, egoísmo, orgulho.

  • Preguiça

A preguiça nos mantém presos ao estado atual. Temos a oportunidade da reencarnação para nos reformarmos de erros passados. Sentar e ficar esperando não resolve nada.

Falamos que tem gente que só passa pela vida, e não faz nada, não aprende nada. Temos mil formas de sermos bons, caridosos, de auxiliar o próximo e de nos reformar.

Mas dá certo trabalho nos conhecer, aceitar nossos erros e dar o passo para mudar. É difícil, mas temos essa condição.

Além disso, diante das dificuldades aprendemos a nos resignar, porém, aceitar não significa não lutar para melhorar. O comodismo, o medo, não levam a nada, só a no futuro olharmos para trás e percebermos que podíamos ter feito mais ou melhor e não fizemos.

E a culpa, o arrependimento, o sentimento de tempo perdido pesam e, também, não resolvem nada. Em vez de aceitar e seguir em frente agindo de outra forma, alguns pensam que merecem sofrer e não mudam o estado mental. A isso também devemos combater, enquanto ficamos presos ao arrependimento não evoluímos e não fazemos nada de positivo.

  • Gula

Não apenas a gula, mas qualquer excesso é prejudicial, como o alcoolismo e as drogas.

O Livro dos Espíritos nos esclarece:

 “(…) o homem é insaciável. Por meio da organização que lhe deu, a Natureza lhe traçou o limite das necessidades; porém, os vícios lhe alteraram a constituição e lhe criaram necessidades que não são reais. (…) quando um homem comete um excesso qualquer, Deus não profere contra ele um julgamento, dizendo-lhe, por exemplo: Foste guloso, vou punir-te. Ele traçou um limite; as enfermidades e muitas vezes a morte são a consequência dos excessos. É o resultado da infração da lei”.

André Luiz relata no livro Nosso Lar que foi chamado de suicida ao desencarnar. Ele não entendia o porquê, mas compreendeu quando lhe foi explicado que todo seu aparelho gástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e de bebidas alcoólicas, que aparentemente são sem importância, e levaram seu corpo a adoecer e, em consequência, desencarnar.

Engana-se quem pensa que morreu, acabou o sofrimento. O vício segue para a vida espiritual. E continuamos sendo o que somos e com os mesmos sentimentos.

Ao cometermos os excessos, permitimos a aproximação de irmãos chamados de vampirizadores, que sugam os fluídos dos alimentos ou bebidas e inspiram a fazermos mais e mais, descontrolando-nos mais ainda.

Causando mal ao corpo, marcamos nosso perispírito, e em encarnação seguinte podemos trazer marcas, como doenças gástricas no caso de excesso de comidas ou bebidas.

Somos responsáveis por zelar pela saúde, mesmo que o corpo físico seja passageiro a esta encarnação, ele é importante aos nossos aprendizados. Sendo por causas físicas ou emocionais os distúrbios do excesso, o fato é que nós provocamos e nós devemos procurar nos curar.

Nesses casos é importante o apoio emocional, psicológico e espiritual também, para ajudar a afastar esses irmãos. E para os irmãos que desencarnaram nessa condição muita oração é necessária para que aceitem ajuda e consigam se desprender das sensações.

  • Luxúria

O mesmo se dá com a luxúria. O desregramento sexual também traz consequências nocivas ao organismo. Além de provocar a aproximação de irmãos desencarnados viciados ou muito ligados à matéria que sugam os fluídos sexuais.

Em próxima encarnação, esses irmãos podem vir com problemas no sistema reprodutor.

O ato sexual não é condenado, é um gesto de amor entre o casal. O excesso e desregramento é que são prejudiciais. Hoje há muita promiscuidade. Quando não há amor, é apenas sensualidade, sem valor moral, satisfazendo a vaidade, o orgulho e outros interesses materiais.

 

Conclusão

Tudo isso é difícil, não? Quanto nós faltamos com as virtudes?

Muito difícil é enxergar nossos erros para depois buscar nos modificar.

E não adianta colocarmos a culpa no outro, que o outro disse, o outro provocou. Nós somos responsáveis.

Então, vamos aproveitar esta encarnação para melhorar. É uma lição a lembrar dia a dia, um pouquinho só já é de grande valia.

Em O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo de Kardec em sua primeira parte (capítulo III – O céu – item 8) temos um complemento sobre o tema:

“A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do espírito: ao progresso intelectual, pela atividade que ele é obrigado a desenvolver no trabalho; ao progresso moral, pela necessidade que os homens têm uns dos outros. A vida social é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, numa palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso tem por motor, por objetivo e por estimulante as relações do homem com seus semelhantes; para o homem que vivesse sozinho, não haveria vícios nem virtudes; se, pelo isolamento, ele se preserva do mal, anula o bem”.

Por Raquel Pereira

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