A intolerância religiosa

Podemos definir a intolerância como a falta de habilidade ou vontade de reconhecer e respeitar diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Ela manifesta-se também através da violência, como prisões ilegais, mortes, torturas, execuções, confisco de bens, destruição de propriedades e incitação ao ódio.

O Brasil é um país laico, ou seja, o estado não interfere e nem impõe qualquer religião, assim, a prática religiosa em nosso país é livre.

 

Intolerância religiosa na história da humanidade

 

  • Perseguição aos cristãos

Na antiquidade (período de 4.000 a.C. a 476 d.C.), o império romano promoveu uma sistemática perseguição aos cristãos. No livro Há dois mil anos de Emmanuel e psicografado por Chico Xavier, destaca-se a personagem Lívia, esposa do senador Publius Lentulus, que foi supliciada ao ser jogada às feras porque tornara-se cristã. Nero, em 64 d.C., incendiou Roma e acusou os cristãos de tê-lo feito, e isso só intensificou a verdadeira caçada contra eles. Tibério proibiu o judaísmo em Roma, e Cláudio os expulsou da cidade.

A perseguição aos cristãos, porém, não é algo exclusivo da antiguidade. Nos tempos modernos isso ocorre em vários países, tais como: Arábia Saudita, Afeganistão, Nigéria, Índia, Líbia e outros. Os próprios governos desses países é que promovem essas perseguições. Além disso, o fundamentalismo islâmico também o faz de uma forma muito violenta.

 

  • Inquisição

Um dos mais violentos movimentos de intolerância e perseguição religiosa da história da humanidade foi a inquisição, que surgiu na França em 1022 com a criação do primeiro tribunal público contra a heresia. Heresia significa qualquer linha de pensamento contrária ou diferente de um credo que pressupõe um sistema doutrinal organizado e ortodoxo. Em linhas gerais, todo aquele que não seguisse o catolicismo era considerado um herege.

Houve muitas delações, muitos tiveram seus bens confiscados pela Igreja e foram mortos brutalmente através de torturas com requinte de barbárie, a fim de confessar sua heresia. Milhões foram assim supliciados.

Um dos mais famosos inquisidores foi Tomás de Torquemada (1420-1498), ele perseguiu duramente os judeus e os mulçumanos na Espanha. Sua principal atividade como inquisidor era o confisco de bens, que era revertido para o reino de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, que eram conhecidos como “os reis católicos”.

 

  • Cruzadas

As expedições conhecidas como “as cruzadas” (1096 a 1272-) foram um movimento de ordem militar e religiosa que teve sua origem na França. Foram pontuadas por uma grande intolerância contra muçulmanos e judeus. O objetivo era tirar do controle deles as terras. À época de seu surgimento não se usava o termo “cruzadas”, mas sim “guerra santa”. Os soldados que as compunham se consideravam como “soldados de Cristo”, e a adoção de “cruzadas” deu-se em função da cruz presente em suas roupas. Os cruzados conquistaram Jerusalém e as terras ocupadas pelos mulçumanos, não sem antes o uso de violência e pilhagens que se estenderam também contra os judeus.

  • Perseguições aos judeus

Ao longo da história nenhum povo foi tão perseguido como o judeu. Essa perseguição foi tão sistêmica que se criou o termo “antissemitismo”, palavra que tem em seu significado o ódio contra os judeus, contra seu histórico étnico, cultural e/ou religioso. O antissemitismo considera os judeus como uma raça inferior, e negam que eles fazem parte da nação onde residem.

O judaísmo existe há mais de 3 mil anos, e seus seguidores professam a Torá, obra essa baseada nos livros Gênisis, Êxodo, Levítico, Numeros e Deuteronômio, todos escritos por Moisés. A Torá em nenhum momento prega a violência, e seus postulados também seguem os dez mandamentos.

Entre os casos extremos de perseguição aos judeus há: Granada na Espanha em 1066; Inglaterra em 1290; Espanha de novo em 1391; perseguições pela Espanha e Portugal à época da inquisição; expulsão da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497; na época contemporânea o holocausto, através do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.

 

  • Perseguição aos protestantes

Atribui-se o começo do protestantismo a Martinho Lutero na Alemanha em 1517, quando publica as suas 95 teses protestando contra a Igreja Católica e a venda de indulgências como forma de perdoar os pecados aos seus compradores. Os protestantes desenvolveram importantes contribuições na educação, nas ciências, na economia e nas artes. O movimento espalhou-se por diversos países da Europa.

Uma das mais tristes páginas da história foi a Noite de São Bartolomeu. Entre 23 e 24 de agosto de 1572 os católicos comandados pela rainha consorte da França, Catarina de Médicis, empreenderam uma enorme caçada aos protestantes, que eram pejorativamente chamados de huguenotes. O massacre durou uma semana. Estima-se que entre 5.000 e 30.000 pessoas tenham perecido sob o fio da espada. Há um livro chamado A Noite de São Bartolomeu ditado pelo espirito J. W. Rochester, que esmiúça o que foi o tão terrível acontecimento.

No livro A missão de Allan Kardec de autoria de Carlos Imbassahy, encontramos a história de João Huss, reformador tcheco nascido em 1369. Ele era filho de camponeses, tornou-se professor e bacharel em artes e filosofia. Apoiava a reforma pois não concordava com a venda de indulgências como forma de apagar os pecados daqueles que as compravam. Ele acreditava que o perdão dos pecados só poderia ser obtido através de uma penitência sincera. Perseguido pela Igreja é preso, e em 1415 é proclamada a sentença que o condenava a fogueira. Enquanto o fogo o envolvia cantou “Christe, fili dei vivi, miserere nobis” (doze filhos de Deus, tem misericórdia). Tinha 46 anos. Em 1857, a médium Ermance Dufaux, de apenas 15 anos, recebeu a informação de que Allan Kardec em uma de suas encarnações fora John Huss.

Jeronimo de Praga (1379-1416) foi o mais devotado e principal amigo de João Huss, a quem defendia e apoiava inteiramente as ideias. Em função disso foi preso e condenado à morte na fogueira, que se deu em 28 de maio de 1416, menos de um ano após a morte de Huss.

 

  • Perseguição aos espíritas

Nem mesmo Allan Kardec, o grande codificador do espiritismo, escapou de ser perseguido. As manifestações mediúnicas acontecem desde os primórdios da humanidade. O plano espiritual sempre esteve presente procurando auxiliar o homem na sua caminhada evolutiva. Portanto, ela não nasce com o espiritismo.

Na Grécia antiga, temos a figura das pitonisas, que eram consultadas para informar sobre o futuro dos consulentes. Sócrates vai à pitonisa de Delfos e pergunta a ela se é sábio, como diziam. Os guerreiros romanos as consultavam para saber se iriam ganhar as batalhas. Elas eram médiuns, as entidades as orientavam. Muitas eram vítimas de entidades de baixo campo, que lhes davam informações falsas.

Moisés (1200 a.C.) era vidente e auditivo, recebe mediunicamente das entidades espirituais os dez mandamentos; Cristóvão Colombo era guiados por “vozes” que o ajudavam; Joana d’Arc, pelos espíritos que a orientavam; Elias tinha mediunidade de efeitos físicos; Santa Bernadette teve uma vidência de uma entidade que depois identificou-se como Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Em 1945, a história de Bernadette virou filme chamado “A canção de Bernadette”.

Em 1854, Allan Kardec vai a Paris e assiste ao fenômenos das mesas girantes. Atribui ao magnetismo o seu movimento, mas quando essas “respondem”, ele vê que há ali um efeito inteligente. Na casa da família Baudin viu a escrita por intermédio da cesta, que respondia às perguntas que eram feitas, algumas até pelo pensamento dos presentes. Kardec entende que o comunicante era o espírito de um morto. Consequentemente, ele verifica que há um mundo invisível, e que no espaço o espírito sofria em função das culpas do passado, de vidas passadas.

Das comunicações obtidas dos espíritos nasce em 1857 o primeiro livro da codificação: O livro dos espíritos, que é o livro básico da doutrina. Jovens médiuns ajudaram Kardec recebendo as informações dos espíritos: Caroline e Julie Budin (respectivamente de 16 e 14 anos na época), e depois juntaram-se a elas Celine Japhet (18 anos) e Ermance Dufaux (14 anos).

Kardec teve a revelação de sua grande missão em reunião na casa do sr. Roustan, na ocasião entidades espirituais preveniram-no sobre as dificuldades que enfrentaria. De fato, levantou-se contra ele, e contra os seguidores do espiritismo, acusações. Chamavam-no de embusteiro, desonesto, ignorante e caloteiro. Acusavam-no de ter enriquecido às custas do espiritismo e dos espíritas que eram ignorantes, fáceis de embrulhar, porque acreditavam em almas do outro mundo, como nas mentiras dele.

O ápice das perseguições a Kardec ocorreu quando do auto de fé de Barcelona. Em 1861 Maurice Lachatre, editor francês e amigo de Kardec, solicita a este que envie para ele trezentos livros espíritas para que sejam vendidos em Barcelona. Quando os livros chegam são apreendidos na alfândega por ordem do bispo de Barcelona, Antonio Palau Termes, sob a alegação de que a Igreja Católica é universal, e os livros sendo contrários à fé católica não poderiam ser consentidos pelo governo pois iriam perverter a moral e a religião de outros países. Às 10h30 da manhã de 9 de outubro de 1861 os livros são queimados em praça pública. Grande massa popular compareceu ao local, e enquanto os livros ardiam, os presentes gritavam em tom de deboche: “viva a inquisição”.

 

  • A intolerância contra o espiritismo no Brasil

Antes de Chico Xavier lançar o seu primeiro livro, Parnaso do além tumulo, o espiritismo era muito perseguido ao ponto de a Associação Médica Brasileira pedir que todos os centros espíritas fossem fechados, pois os espíritas eram considerados como loucos.

O grande educador e espírita Eurípedes Barsanulfo (1880-1918) ao criar o Colégio Allan Kardec em Sacramento-MG em 1907 tornou a instituição um marco na educação, pois ensinava também os fundamentos do espiritismo. Perseguido e caluniado pelo clero, foi desafiado para um debate em praça pública entre ele e o padre Yaque, que dizia ser o espiritismo uma loucura e seus adeptos, loucos, passíveis das penas eternas. No momento do debate, grande massa popular esteve presente, e o padre é quem iniciou. Barsanulfo então, antes de falar, faz uma prece e calmamente vai derrubando uma por uma das argumentações do padre. O público presente aplaude Eurípedes, que então abraça fraternalmente o padre.

Outro confrade que foi perseguido foi Caibar Schutel (1868-1938). Em 1904, funda em Matão o Centro Espírita Amantes da Pobreza, e em 1905 publica a primeira edição do jornal espírita O Clarim. Por essa época havia uma grande intolerância religiosa imposta pela religião majoritária. Não só o espiritismo sofria com isso, mas outras religiões também. Assim, um sacerdote com a ajuda de um comissário de polícia conseguiu uma ordem para que o centro fosse fechado, mas não logrou êxito, porque tal ordem era contra a constituição federal. Acusado pelo clero local de ter pacto com o demônio, Caibar vai à praça pública e lá defende os seus ideais. Caibar triunfou e continuou a sua obra ajudando os necessitados.

 

Não somente a intolerância religiosa, mas também todo o tipo de intolerância, não mais existirão na Terra no dia em que o homem aprender que o respeito pelas opções do ser é de fundamental importância, enxergando o outro como irmão, pois todos temos o livre arbítrio e esse deve ser sempre respeitado.

Por Gilson Pereira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s